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Novo campus da USP revoluciona
região leste da capital
Unidade acadêmica já tem 1020 alunos freqüentando dez
cursos de graduação e irá oferecer mais 3060 vagas até 2008
Com o objetivo de ampliar a oferta de vagas no ensino público superior no Estado e promover o desenvolvimento da zona leste de São Paulo, a USP inaugurou no início do ano seu novo campus na capital. A nova unidade universitária recebeu investimento de R$ 62 milhões e está instalada em uma área de 1,25 milhão de metros quadrados, vizinha do Parque Ecológico do Tietê e localizada no quilômetro 17 da Rodovia Ayrton Senna.
A construção do novo campus foi dividida em três fases. A primeira etapa foi iniciada em março de 2004 e concluída em fevereiro de 2005; a segunda começou em dezembro de 2004 e terminará em março de 2006 e a última vai começar em janeiro de 2006 e terminar em dezembro de 2007. Hoje, 1020 estudantes já freqüentam as aulas em dez cursos de graduação, oferecidos nos três períodos: manhã, tarde e noite.
Os cursos que já estão em funcionamento são Sistemas de Informação, Ciências da Natureza, Obstetrícia, Gerontologia, Ciências da Atividade Física, Marketing, Lazer e Turismo, Gestão de Políticas Públicas, Tecnologia Têxtil e Gestão Ambiental. Além disso, outros dois já foram aprovados e só necessitam do término das obras para começarem suas atividades em 2006. A previsão da USP Leste é acrescentar progressivamente mais 1020 vagas a cada ano e iniciar o ano letivo de 2008 com 4,1 mil alunos matriculados, em 16 cursos.
A nova unidade dispõe de modernas instalações, especialmente adaptadas às necessidades do portador de deficiência. Para isto, o projeto arquitetônico privilegiou o uso de elevadores e rampas nos acessos às salas e auditórios e as escadas são poucas e o piso tátil garante deslocamentos sem riscos para o deficiente visual que, ao bater sua bengala no dispositivo, é "informado" da escada.
Encerrada a primeira fase do projeto, a comunidade acadêmica (estudantes, alunos e docentes) já dispõe no campus de serviços como vigilância permanente, refeitório, caixa-d'água, anfiteatros, coleta seletiva de lixo, biblioteca, laboratórios, frota de veículos, ambulância e ônibus circular gratuito, em intervalos de 15 minutos, entre a estação Engenheiro Goulart da CPTM e o campus.
Em junho de 2006, está previsto o final do serviço do ônibus circular. Ele será substituído com a inauguração da estação USP Leste da CPTM, que integra a Linha F (Brás-Calmon Viana) da companhia. Uma passarela interligará o campus com a estação, na Avenida Dr. Assis Ribeiro. E o local será monitorado por uma base fixa da Polícia Militar, que será instalada no campus.
O estatuto da USP não prevê duplicidade na oferta de cursos em uma mesma cidade. Assim, as carreiras oferecidas na zona leste são exclusivas, assim como as demais opções disponíveis na Cidade Universitária. Na nova unidade, os cursos foram concebidos para serem inovadores e assim, atrair o interesse dos moradores da região.
Professores e funcionários
O novo campus da USP dispõe de 64 docentes contratados, todos com doutorado: oito vieram transferidos e 58 foram aprovados em concurso. Os funcionários são em número de 68 e 51 vieram da Cidade Universitária. Interessados em integrar o campus leste devem procurar os editais de convocação aberto para contratação junto à universidade.
A proposta acadêmica da USP Leste é formar um profissional diferenciado, capaz de encontrar soluções para os problemas da região e, depois, repassar a experiência adquirida para outras regiões do Estado. Uma novidade foi a introdução da disciplina Resolução de Problemas no currículo básico de todos os cursos de graduação do campus. É uma matéria de duração anual, oferecida no primeiro semestre letivo que consiste em reunir os universitários em grupos de 12 alunos para desenvolver uma atividade conjunta de iniciação científica, ligada à futura área de atuação profissional das equipes.
Os temas dos trabalhos são obrigatoriamente ligados ao desenvolvimento da zona leste, área de maior densidade populacional de São Paulo (4,5 milhões de pessoas) e com poucas opções de ensino superior gratuito para os moradores. O objetivo é encontrar soluções para questões como transporte, moradia, educação, saneamento básico e capacitação.
Projeto e construção
O professor Antonio Marcos de Aguirra Massola, docente da Escola Politécnica, é o engenheiro responsável pelo projeto de construção do campus leste. Ele é coordenador do Espaço Físico da USP e conta que o campus está sendo construído em dois terrenos doados pelo Governo do Estado. O maior tem área de um milhão de metros quadrados, margeia o Rio Tietê e recebeu o nome Gleba 2. O menor é vizinho do Parque Ecológico do Tietê, tem 250 mil metros quadrados de área e foi denominado Gleba 1.
O projeto inicial dos edifícios previa a instalação central do campus na Gleba 2, e na Gleba 1 seria construído um centro esportivo. Porém, antes de começar as obras, a Comissão Executiva de Implantação da USP Leste decidiu erguer os principais prédios na Gleba 1. A mudança estrutural foi motivada pela economia de tempo para concluir o cronograma de obras e porque a Gleba 1 não precisava ser aterrada e dispensava licenciamento ambiental.
A construção prossegue agora nas duas glebas e o novo campus tem R$ 62 milhões empenhados para as obras. A área construída já ocupa 48 mil metros quadrados e o custo médio de construção é de mil reais por metro quadrado. A USP conseguiu economizar recursos a partir de diversas experiências realizadas pelos professores antes das obras. Os prédios do novo campus seguem um modelo ergonômico de edifício criado no campus da USP de São Carlos, que já foi aprovado pela comunidade acadêmica.
O professor Carlos Reynaldo Pimenta, coordenador geral adjunto do campus leste, é docente da Faculdade de Engenharia da USP de São Carlos e enfatiza que o novo campus foi também projetado para manter padrões racionais de consumo de água e eletricidade. As iniciativas incluem reciclagem de lixo (Programa USP Recicla), e o conjunto de reservatórios construídos nos telhados para acumular água da chuva, que é reaproveitada para ser utilizada na limpeza, irrigar de gramados e canteiros e como reserva obrigatória contra incêndios.
Perfil do estudante
Do total de 1020 aprovados no primeiro vestibular, 47% cursaram o ensino médio em escolas da rede pública, 42% são moradores da zona leste, 21% se declararam negros (o dobro do porcentual da USP) e 39% dos aprovados têm renda familiar inferior a R$ 1,5 mil. A direção da USP avalia que a proposta de integração da nova unidade com a zona leste tem sido bem-sucedida. E acredita que no final de cada ano, o processo irá ganhar ainda mais força, com o progressivo aumento da oferta de vagas gratuitas para o ensino superior na região.
Segundo Pimenta, os números do primeiro vestibular contribuem para derrubar antigos preconceitos, como dizer que a USP é uma escola inacessível para estudantes carentes e afrodescendentes. E lembra que no cursinho pré-vestibular gratuito mantido pela universidade, quem ministra as aulas são os alunos de graduação da USP, que incentivam e mostram para os vestibulandos carentes, ser possível concorrer e conseguir concretizar o sonho de ser aprovado na Fuvest. "A maioria dos professores do cursinho são ex-alunos de escolas pública e servem de exemplo para os estudantes se espelharem e jamais desistirem dos estudos", finaliza.
Proposta pedagógica
O professor Waldir Mantovani é um dos docentes que se transferiu voluntariamente para a USP Leste. É professor do departamento de ecologia e coordenador do curso de gestão ambiental e se mudou atraído pela oportunidade de criar e colocar em prática uma nova proposta pedagógica. A intenção é promover o resgate de valores humanistas estabelecidos nos primeiros anos da USP, na década de 30 pela Faculdade de Filosofia de Ciências e Letras, que eram comuns para todos os cursos e que, segundo ele, se perderam ao longo do tempo com a especialização das carreiras acadêmicas.
O objetivo principal dos novos cursos é formar cidadãos, independente da graduação que cursaram. A base ampla de conhecimentos transmitidos pretende também reforçar a formação de pesquisadores capazes de propor soluções capazes de atender a todos níveis da população, de todas classes sociais e econômicas.
No curso de gestão ambiental, Waldir aposta na formação de um cientista capaz de inovar, propor soluções para atenuar o impacto ambiental, degradação do solo, poluição da água e da atmosfera. E afirma que os resultados obtidos pelos primeiros formados, irão trazer subsídios para uma maior adequação do curso às necessidades da sociedade. "O campus é calcado na democracia e atende reivindicação encaminhada na década de 80 pelas comunidades da região", finaliza.
Experiência prévia
O assistente técnico de infra-estrutura Marcos André de Almeida Santos é um dos funcionários mais entusiasmados com o novo campus. Morador de Itaquera, reduziu de duas horas para 20 minutos o tempo gasto no deslocamento entre sua residência e a universidade. Na opinião dele, um dos diferenciais da nova unidade é poder contar com equipe experiente, motivada e disposta a escrever uma nova página na história da principal universidade do País.
"Está sendo um grande desafio receber os alunos com o campus ainda em obras e oferecer o mesmo padrão de qualidade de ensino oferecida da USP nas demais unidades", explica. A dedicação de Marcos ao novo campus tem sido total, inclusive nos fins de semana. Ele explica que o cronograma de obras tem obedecido e desde o início do ano letivo nenhum incidente foi registrado. "Aplico aqui minha experiência de 24 anos atuando na prefeitura da cidade universitária".
O técnico de laboratório Luiz Cláudio Silva vislumbrou na USP Leste uma nova oportunidade para sua carreira. Há 24 anos ele integra o quadro funcional da USP e se transferiu voluntariamente do departamento de ciências farmacêuticas da Cidade Universitária para a nova unidade. "É uma nova proposta pedagógica, os cursos tem muitas áreas interdisciplinares e a interação com os estudantes tem sido excelente", afirma Luiz.
Namoro no campus
Os namorados Rafael Santana e Tayne Lavinas se conheceram nos primeiros dias de aula do novo campus. Ela é aluna do curso de Lazer e Turismo e mora com seus pais em Guarulhos, município da Grande São Paulo vizinho do campus. Ele é calouro de Sistemas de Informação, veio do litoral paulista e montou uma república com dois colegas, próxima ao campus.
Satisfeitos e cheios de planos para o futuro, o casal conta que a aprovação na Fuvest foi uma grande felicidade, ampliada ainda mais pelo fato de saber que serão da primeira turma de formados pela USP a atuar em novas áreas profissionais. E comemoram o fato de dispor de instalações adequadas, confortáveis e de recursos de multimídia, como o projetor (datashow) disponível em todas salas de aulas e laboratórios.
"Estudo no primeiro e único curso de Lazer e Turismo do País. É uma formação mais abrangente do que Turismo e habilita o profissional para trabalhar em agência, hotel, feiras e gastronomia e também o prepara para organizar atividades de recreação na área cultural e de lazer de um município. Consegue, desta maneira, envolver o visitante e o morador da cidade", explica a estudante de 17 anos.
A disciplina Resolução de Problemas está empolgando a universitária. Nas reuniões periódicas, seu grupo de estudo vem participando de encontros com a comunidade carente do Jardim Keralux, vizinho da USP Leste. Nos encontros surgem propostas para aprimorar e estender o Programa Escola da Família para todas escolas da rede pública da região e também propostas para colocar em funcionamento projetos de educação e de infra-estrutura para o lazer do bairro, como quadras esportivas, bares e lanchonetes.
O universitário Rafael é aficionado por computadores e é estagiário em um dos laboratórios de informática da nova unidade. O estudante deixou São Sebastião e mudou-se para São Paulo. Nos finais de semana, divide o tempo entre o curso de inglês no campus leste e os passeios com Tayne.
"A qualidade do serviço oferecido tem sido excelente. Na época do cursinho, havia muita especulação e comentários de que o ensino a ser ministrado seria inferior ao oferecido nas outras unidades da USP. A maioria dos professores se transferiu para o campus já com objetivos definidos, como realizar uma pesquisa específica ou desenvolver trabalhos de extensão universitária com a comunidade", afirma o universitário.
Rafael é testemunha também das mudanças ocorridas no bairro de Ermelino Matarazzo, desde a inauguração do campus. Segundo ele, no início do ano letivo o comércio da região não dispunha de muita variedade e também apresentava pouca oferta de imóveis para alugar, caixas eletrônicos, supermercados, videolocadoras, lan houses e postos de gasolina. "Meu expediente no laboratório de informática termina às 23h. Na semana que fiz minha mudança para São Paulo, todas as pizzarias já estavam fechadas neste horário. Hoje, já há diversos serviços de entrega com horários mais dilatados", comemora.
"Um dia, nossos filhos terão orgulho de dizer que seus pais foram formados na primeira turma de estudantes da USP Leste", imaginam os universitários.
Rogério Silveira
Da Agência Imprensa Oficial
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