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Atrações rurais de Boa Esperança
do Sul encantam crianças de Peruíbe

Grupo de estudantes visita a Fazenda Seringal Paulista, a primeira
propriedade do Estado a investir na produção da borracha natural


Encanto, novidades e um complemento aos conhecimentos adquiridos na sala de aula. Este foi o resultado da viagem de férias que um grupo de 40 crianças carentes da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Parque Guaraú, de Peruíbe fizeram no período entre os dias 18 e 22 de julho ao município de Boa Esperança do Sul, na região central do Estado, distante 300 quilômetros da capital.

A viagem foi uma iniciativa do Programa Caravanas do Conhecimento e integra as atividades da Fundação Prefeito Faria Lima (Cepam), órgão vinculado à Secretaria Estadual de Economia e Planejamento que levou seis mil crianças, de 9 a 11 anos, da rede pública de ensino para conhecer 131 cidades do interior no período entre os dias 11 e 22 de julho.

O projeto Caravanas do Conhecimento é sempre realizado no período das férias escolares. A programação de julho recebe o nome de Redescobrindo o Interior, e nas férias de verão, a garotada do interior visita o litoral e recebe o nome de Interior na Praia. No início do ano, oito mil crianças de 164 cidades do interior viram o mar pela primeira vez.

O Cepam fez os contatos entre as prefeituras e organizou a viagem. Além disso, providenciou exame médico e seguro de vida para cada uma das crianças e ofereceu também treinamento para os monitores e para o Soldado PM Anderson Luís Santos Morato que veio de Peruíbe no ônibus junto com as crianças e acompanhou os estudantes por todo o período que estiveram foram de seu domicílio.

"As crianças se comportaram muito bem no alojamento e nos passeios. E aprenderam valores como o respeito mútuo, a boa convivência e a solidariedade. Quando algum menino errava, os demais se deitavam e todos faziam dez flexões, se a infração fosse considerada leve; se o grupo a considerasse severa, todos faziam 50 flexões", contou o Soldado Morato.

Os estudantes ficaram hospedadas na Emef Ana da Cunha Vianna, a maior do município, que atualmente tem 1,2 mil alunos matriculados. Três salas de aulas foram adaptadas e receberam colchonetes para abrigar o grupo de 20 meninas, 20 meninos e três monitores. Durante os passeios, foram servidas cinco refeições diárias e todo o cardápio foi elaborado por nutricionistas.

A professora da quarta-série Rosana de Freitas Tabata acompanhou os alunos e foi uma das quatro monitoras do grupo. Ela contou que o programa Caravanas do Conhecimento contemplou estudantes da capital, região metropolitana e litoral. "A maioria das crianças é de famílias carentes, e esta foi a primeira viagem que fizeram na vida. Para elas, foi um grande desafio passar quatro noites longe dos pais e manter os alojamentos arrumados", observa Rosana.

As instalações eram confortáveis e espaçosas. E os anfitriões ofereceram também diversões como jogos de dama, xadrez, dominó, pingue-pongue em mesa oficial e filmes em DVD, nas TVs de 29 polegadas instaladas em cada um dos alojamentos.

Berenice Terezinha Mastri, responsável local do Cepam para o Programa Caravanas do Conhecimento, afirmou que ficou responsável por verificar as condições dos alojamentos, a qualidade da comida oferecida, distribuir camisetas para os monitores locais e apoiar todas as iniciativas. "As atividades oferecidas foram muito interessantes, permitiram às crianças conhecer mais sobre a vida no interior e trocar experiências com pessoas de outras regiões do Estado", acrescenta.

Boa Esperança do Sul

O Rio Boa Esperança corta o centro da cidade e já foi canalizado. A principal fonte de renda do município de 12 mil habitantes é a agricultura, com destaques para as culturas de cana e laranja. E a visita das crianças foi acompanhada durante toda a estadia por Maria Cândida Beraldo, supervisora de ensino municipal que também atendeu a todas emergências e necessidades imediatas dos alunos.

Os anfitriões de Boa Esperança do Sul organizaram uma programação especial, com churrasco, visitas em fazendas, em clubes, pesqueiro, apiário e shows. E as atividades culturais e de lazer permitiram às crianças conhecer um pouco da identidade cultural do interior e o modo de vida nos pequenos municípios paulistas.

A programação noturna também foi agitada. As crianças assistiram apresentações de grupos de dança (country e hip-hop) e demonstrações de artes marciais. Na quarta-feira, 20 de julho, conferiram o show do cantor Juliano César no estádio municipal, que celebrou o aniversário da cidade. E na véspera do retorno para Peruíbe, no dia 21, participaram de festa de despedida no Clube Municipal, que teve show de DJs.

O primeiro seringal do Estado

Na terça-feira, dia 19, o primeiro destino dos estudantes foi a praça da capela municipal de Boa Esperança do Sul, localizada no centro da cidade. No local, conheceram e, juntos, tentaram abraçar, sem sucesso, a copa de um timburi, árvore plantada há 60 anos que virou símbolo da cidade, com mais de dez metros de altura. Depois, a viagem prosseguiu por mais 20 quilômetros, e o motorista cruzou canaviais até alcançar a entrada da Fazenda Seringal Paulista, localizada na divisa da área de rural de Boa Esperança do Sul com Gavião Peixoto.

Ao chegar, foram recepcionados pelo proprietário da fazenda, Carlos Procópio de Araújo Ferraz. O anfitrião contou a história de seu avô, cujas reminiscências misturam-se à história da exploração da borracha no Estado. Em 1917, o Marechal Rondon enviou para o avô de Carlos 24 sementes de seringueira (Hevea brasiliensis), árvore da flora nacional originária da Amazônia, que foram plantadas na fazenda.

A idéia de introduzir a heveicultura (cultura da seringueira) no Estado foi uma alternativa proposta frente à falência dos seringais da Amazônia, no início do século passado, que foram devastados pelo fungo Microcyclus ulei, causador do mal-das-folhas da seringueira. Na natureza, as sementes caem das árvores, se dispersam e flutuam no leito dos rios, durante o período das cheias. Em média, doze dias depois da diminuição do nível dos rios, a semente se fixa no solo e germina. Deste modo, as árvores surgem sempre distantes umas das outras.

Nas plantações da Amazônia havia a concorrência de produtores como a Malásia e a Costa do Marfim, países que receberam as sementes contrabandeadas do Brasil pelos ingleses e franceses. Além da biopirataria, as grandes plantações de seringueiras apresentavam as condições ideais para o fungo, que tem ciclo de reprodução rápida (dez dias) e necessitava de 98% de umidade do ar.

Os líderes brasileiros acreditavam que a seringueira poderia ladear a produção dos cafezais paulistas, já que o clima no Estado é mais seco e impede a proliferação do microorganismo. Atualmente São Paulo produz 52% da borracha nacional, sendo que o Brasil detém 1% da produção mundial da matéria prima cada vez mais consumida pela indústria.

Sementes naturais

Carlos deu uma aula para as crianças sobre o Ciclo da Borracha e passou um vídeo produzido na década de 50, que contou como a matéria-prima brasileira auxiliou os países Aliados a vencerem a Segunda Guerra Mundial. Mostrou também livros e recortes do século passado e amostras da borracha produzida do modo manual, que consistia em agrupar o látex e produzir a "péla", uma bola de borracha de coloração que adquire a cor marrom depois de ser vulcanizada (queimada) e enviada à indústria.

As crianças do Emef Parque Guaraú ficaram encantados com a fazenda. Alan Almeida Mendes, 11 anos, da quinta-série foi o primeiro a segurar a péla e depois a repassou para seus colegas. Espantado com o peso, imaginou como é que os índios se divertiam com um brinquedo tão pesado. Junto com ele, seu colega Higor Cavalheiro Gonzáles, também da quinta-série ouviu que havia muitas sementes de seringueira na fazenda. E não sossegou enquanto não encontrou uma na mata para levar de recordação para Peruíbe.

Jéssica Mascarello, 11 anos, levou outro tipo de lembrança da fazenda. Uma bolinha de látex, feita com a mão, logo depois que Carlos fez uma incisão na copa de uma seringueira. "É um brinquedo legal, embora seu cheiro seja ruim. Só fiquei com dó das árvores, que são cortadas durantes oito meses do ano", afirmou.

O grupo de crianças seguiu à risca o conselho dos monitores, antes de passear na mata, e ficou alerta sobre o perigo de animais como cobras e insetos. O garoto Lucas Ramalho (10 anos) ficou espantado ao saber que a seringueira cresce dois metros a cada dois anos. E seu xará, Lucas Florido (10 anos) já decidiu pedir autorização para a diretora de sua escolar autorizar o plantio de uma seringueira na escola. "A viagem foi inesquecível e agora a sombra da árvore nos fará lembrar destes momentos".

A fazenda Seringal Paulista é certificada como estação experimental pelo Instituto Agronômico de Campinas (IAC) e hoje é uma das principais produtoras do País de sementes naturais de seringueiras. Carlos explica que a heveicultura é uma opção rentável para o agricultor e tem a vantagem de retirar o CO2 (gás carbônico) da atmosfera e ajudar a reduzir os gases do efeito estufa. Segundo ele, uma boa variedade de seringueira demora em média cinco anos para começar a produzir. E neste período, o produtor deve plantar outras culturas junto com o seringal, como banana e palmito.

Rogério Silveira
Da Agência Imprensa Oficial


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