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"Sou apaixonada por ritmos sertanejos,
mas também gosto de música clássica"
Araraquara tem tradição em música erudita e população aguarda com interesse as oficinas, cursos de apreciação musical e concertos
Araraquara lamenta não receber o corpo completo da Osesp (na região, a sede escolhida foi São Carlos), mas nem isso diminui a expectativa da população. E é num clima de entusiasmo que a população aguarda as apresentações do Coro de Câmara, Quarteto de Cordas, do Grupo de Metais e do Quinteto de Sopros.
O jornalista Luís Augusto Zakaib acha que a vinda dos conjuntos da Osesp dá chance para o público da cidade conhecer grupos e repertórios de música erudita somente restritos à capital. "A iniciativa contribui para formar e renovar platéias no interior", considera Zakaib, que também é gestor do Museu da Imagem e do Som (MIS-Araraquara).
A programação itinerante em Araraquara terá também oficinas e três módulos do curso de apreciação musical. Os concertos serão no interior da Igreja Santa Cruz, no centro, e no teatro do Serviço Social do Comércio (Sesc), no bairro Quitandinha.
Margarida Cândido Lima, empregada doméstica, comemora, por exemplo, o fato de todas as atividades ligadas às apresentações serem gratuitas. "Sou apaixonada por ritmos sertanejos, mas gosto também de música clássica. Tenho até CDs com versões orquestradas das músicas das minhas duplas caipiras preferidas. Para mim, será uma grande alegria ouvir artistas eruditos tocando músicas que conheço", comenta.
Localizada a 275 quilômetros da capital, no norte paulista, a cidade abriga o Conservatório Dramático e Musical e tem tradição nesse campo, pois foi uma das pioneiras do gênero instrumental no Estado.
A escola foi criada em 1928 pelo maestro italiano José Tescari, radicado em Araraquara desde 1913. O maestro Tescari foi intérprete (organista) e comandou uma orquestra que se apresentava durante sessões de filmes mudos nos cinemas da cidade. Faleceu em 1954, aos 71 anos deixando um rico legado, repleto de óperas, canções, peças sacras, sinfonias e operetas.
Resgate musical
Desde sua fundação, em 2000, o Sesc promove eventos voltados ao resgate da memória da cultura no município. Um dos destaques foi o Festival Maestro Tescari - Compondo o Futuro, realizado em 2005 com grupos e artistas fazendo releituras de composições do músico italiano radicado na cidade.
No final de 2007, parte do repertório foi reunido em um CD comemorativo, lançado pelo Sesc Araraquara com o nome do festival. Na ocasião, os mil exemplares do disco foram doados e o encarte trazia fotos antigas e um breve histórico do Conservatório Dramático e Musical.
Mostra de Música Instrumental
A própria Osesp já se apresentou em Araraquara. Foi no teatro do Sesc em 2001, com sala lotada e ingressos que se esgotaram em poucas horas nas bilheterias. "A música clássica sempre teve espaço privilegiado no Sesc", explica Regiane Cristina Galante, responsável pela programação da entidade.
Em 2003, o Sesc também promoveu o Festival Internacional de Violão, iniciativa que reuniu diversos grupos e expoentes da música erudita brasileira, como o violonista Paulo Martelli, nascido na cidade.
Com o tempo, outros gêneros e ritmos foram acrescentados e o nome do evento mudou para Mostra de Música Instrumental. Na edição do ano passado apresentaram atrações como o Grupo Duofel, Altamiro Carrilho (flautista), Yamandú Costa (violonista) e Wagner Tiso (compositor).
Neste ano, a Mostra de Música Instrumental será realizada de 12 a 26 de julho, tendo como principal homenageado o maestro gaúcho Radamés Gnattali (1906-1998). O evento tem presenças confirmadas de Paulo Moura, João Donato e de Zé Menezes, sambista cearense e antigo parceiro do músico no Quinteto Radamés Gnattali.
A dama do violino
A musicista e maestrina Edna Nogueira foi uma das primeiras alunas do Conservatório Dramático e Musical de Araraquara. Matriculou-se em 1930, aos dez anos de idade, com o sonho de se tornar pianista. Mas, importados e caros, os pianos estavam fora das posses da família.
Assim, ela se contentou com o violino e, junto com seis outras alunas, formou a primeira turma de violinistas do Conservatório. Hoje, aos 88 anos, ela continua ligada à música e fala com entusiasmo da vinda do Quarteto, do Quinteto e Coro de Câmara da Osesp para a cidade.
"Vejo a Orquestra somente nos programas de domingo à noite na TV Cultura. Aliás, na semana passada tive uma grande alegria, ao ver um ex-aluno meu, o Moisés Azevedo, tocando com o grupo. Hoje, ele estuda no Conservatório de Tatuí", diz orgulhosa.
Se a música foi a primeira paixão, o magistério foi a segunda, tanto que, aos 18 anos, já era professora primária. Mas, logo, veio a terceira a paixão - João, que fez outro pedido junto com o de casamento: ela teria que abandonar o trabalho no grupo escolar. "E eu disse sim... para os dois pedidos", lembra com sonora gargalhada.
Mas não abandonou o violino e, de quebra, ainda regia fanfarra da cidade. Passou a dar aulas em casa e, por fim, acabou ganhando do pai, o tão sonhado piano, que também passou a dominar em pouco tempo.
Um sonho
Edna não sabia, mas sua opção pelo violino mudou o panorama musical da região de Araraquara. Todos os violinistas da cidade estudaram com ela. E a incansável dama da música ainda achou tempo para fundar cinco conjuntos musicais - todos com atividades regulares no município.
Atualmente ela coordena e toca na Orquestra Filarmônica Experimental Uniara (52 instrumentos) e no Conjunto Instrumental Feminino Uniara (18 componentes). É também instrumentista da Orquestra de Sopros e da Banda da Uniara, ambas dirigidas pelo maestro Fúlvio Vassiliades.
Em 2006, recebeu da Câmara Municipal o título de cidadã benemérita da cidade. Não pensa em se aposentar e mantém viva a semente plantada pelo Maestro Tescari. Toca em batizados, casamentos e leciona em casa. Ao longo da vida, ensinou mais de 200 pessoas a tocar e mantém atualmente, 20 alunos com idades entre cinco e 90 anos - metade deles é carente e não paga pelas aulas.
"Vou assistir alguma das audições em Araraquara e a orquestra completa em São Carlos. Na verdade, meu sonho é conhecer a Sala São Paulo, na capital. E se for possível, ouvir a Osesp executando a 9ª Sinfonia de Beethoven", confessa.
PROGRAMAÇÃO
15 de julho - terça-feira
Sesc Araraquara
Rua Castro Alves, 1315
9 horas - Curso de Apreciação Musical - Módulo 1
13 horas - Oficina de Madeiras
14 horas - Oficina de Cordas
20h30 - Concerto do Quarteto de Cordas
Igreja de Santa Cruz
Rua São Bento, Praça de Santa Cruz
18 horas - Concerto do Quinteto de Sopros
16 de julho - quarta-feira
Sesc Araraquara
9 horas - Curso de Apreciação Musical - Módulo 2
15 horas - Oficina de Metais
20h30 - Concerto do Grupo de Metais
17 de julho - quinta-feira
Sesc Araraquara
9 horas - Curso de Apreciação Musical - Módulo 3
Igreja de Santa Cruz
Rua São Bento, s/nº
16 horas - Concerto do Coro de Câmara
Rogério Silveira
Da Agência Imprensa Oficial
Reportagem publicada originalmente no trecho compreendido entre as páginas 50 e 53 da revista Cadernos de Cidadania da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo de julho de 2008.
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